Dom de ser poesia

Pensando, matutando, planejando, assim, abruptamente, resolvi que vou publicar poesia aqui no guardador. Aquelas poesias que sinto que tenho que compartilhar, as poesias que quando leio parece que foi eu que as inventei de tanto que expressam algum sentimento que tive em comum, ou como quando disse Mário Quintana:

“Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo… é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua…”

Quando publicar as poesias, elas sempre virão com esse título de postagem: Dom de ser poesia, termo extraído da poesia do mestre Manoel de Barros.

E para começar tem esse poema do Paulo Leminski, chamado Bem no fundo. Segue ele abaixo:

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

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Aventuras na aprendizagem de leitura e escrita

“fui agraciada de trazer esse eco da poesia em meu ser”.

Quando comecei a ler, tinha pouco mais de cinco anos de idade. E desde que esse novo mundo se revelou aconteceram algumas histórias bastante curiosas.

Todo final de semana eu passava na casa de meu tio-avó Raimundo, e nos fundos da casa que ele morava tinha um depósito repleto de tralhas, tudo quanto era tipo de coisas que estivesse ao alcance da minha imaginação, lá eu encontrava. Bolas, bonecas, bolsas, panelas, objetos sem-ter-nem-pra-quê, e claro, livros! Muitos livros!

Num desses finais de semana, voltei para casa com alguns desses objetos, os quais tio-avô tinha me presenteado. E dentre essas coisas trouxe três livros. Só que eu ainda não sabia ler tão bem, e como eu não conseguia ler todas as palavras, então  ficava inventando histórias para aqueles personagens.

Passado alguns meses viajei para a ilha de Marajó, para passar as férias com meus familiares. O que eu não esperava é que fosse viver tantas aventuras nessa viagem.

Chegando ao barco eu conheci uma moça de pele muito alva; e logo observei que ela era tão branca que as pontinhas de seus dedos dos pés eram bem vermelhinhas, como se fossem acerolas. Nessa viagem eu havia levado os livros que tio-avô Raimundo me deu. Ela folheava os livros e me contava inúmeras histórias só de olhar aquelas ilustrações.

O tempo passou, as férias acabaram e eu voltei para casa, minhas aulas começaram. Tudo tinha voltado ao normal. Mas a nossa família, agora tinha uma nova amiga, a tal moça, sabe? Pois é. Ela morava bem perto de casa, dava para ir a pé visitá-la.

 E foi aí que um dia eu e minha mãe fomos fazer uma visita. Chegando ali, lá estava ela, sempre tão educada, tão delicada, era como uma boneca de porcelana, nem parecia ser feita de carne. Então ela guiou-me até a estante de sua sala, que para minha surpresa tinha muitos gibis da turma da Mônica. Parecia sonho. Ficamos o final de semana todo na casa dela. E enquanto mamãe se debruçava nas conversas, eu estava em meio aos gibis e a contemplar as bonecas de cabelos dourados da Dina (uma amiga da moça, que dividia o apartamento, tão simpática quanto).

  Em meio a esse mundo fantástico que se apresentara minha leitura fluiu, de hora em hora eu ia ter com minha mãe e a moça, ler para elas trechos dos quadrinhos. Minha mãe se orgulhava enquanto a outra se admirava com minha esperteza.

  Nessa mesma época, um tio meu viera passar o círio de Nazaré em Belém; ele estava pagando uma promessa à santa por ter conseguido o cargo de secretário de cultura em uma cidade no interior do Estado do Pará.

  Cumprimentei-o e fui para aula. Fiz minhas lições como de costume e recebi da professora a carta que eu tinha escrito há alguns dias. Era uma das melhores notas da turma. Fiquei muito contente! O sinal do recreio tocou, guardei a carta na mochila e sai saltitando para fora da sala. Nesse dia o lanche era mingau de milho. Corri, pulei, conversei com meus colegas, sorri, comprei alguns pirulitos e voltei para sala. Sentei em minha carteira, abri minha mochila e para o meu espanto lá estava a carta toda molhada de mingau. Tremi de raiva! Sabia que só podia ser obra da Safira. E quando olhei para o lado, lá estava ela contemplando o resultado de sua maldade. Safira era uma menininha que não se afeiçoava muito a mim, mas que fingia de vez em quando ser minha amiga.

  Ao chegar em casa, chorei para minha mãe pelo que tinha ocorrido. Meu tio tendo escutado o que tinha acontecera, veio ter uma conversa comigo. Disse para mim que assim que chegasse à sua casa providenciaria alguns livros, afim de que eu não mais chorasse pela carta.

   Muito tempo passou e eu acabei esquecendo o que ocorrera com a carta e a promessa dos livros que meu tio fez. Algum tempo depois começaram a surgir misteriosamente livros em casa, mas eu não parei para pensar de onde eles vinham, simplesmente estavam ali e eu os lia. Até que um dia catando os meus gizes de cera embaixo da cama, encontrei uma caixa cheiinha de livros infantis, dos mais diversos. Todos os tipos de ilustrações, autores, cores, histórias, cantigas de roda, havia naquela caixa. Titio havia cumprido o que prometera.

   Anos depois minha tia me contou que ela não queria que os livros começassem a se perder e por isso me entregava um de cada vez. Até ter certeza de que eu cuidaria dos livros.

   E como em minha família, sempre esteve presente a poesia, a música e a literatura. Fui agraciada de trazer comigo esse eco da poesia em minha alma. É inerente a mim a literatura. Tudo o que eu faço, sempre tem um traço de música, de poesia, de cinema. Sempre tem umas dessas linguagens cercando aquilo que faço. Seja trabalho da faculdade, seja em uma conversa no dia-a-dia.

   E portanto eis que a literatura para mim algo que traz paz, um verdadeiro estado de alma.

Inspiração e Escrita

Comecei a fazer uma disciplina na Universidade que trata da formação do professor-leitor.
Inicialmente pensei: vou fazer uma disciplina na sexta-feira a noite pra que?
Despretensiosamente comecei a frequentar essas aulas; e não é que fui surpreendida logo no primeiro dia com a fala da professora Sandra: Para quê escrever?
E continou; Vamos sempre viver com essa mania de reproduzir o que o outro autor que é conceituado escreve? Quando é que vou agir como sujeito criador de novas ideias e textos, os quais quem sabe se tornarão os próprios pensamentos que embasarão as próximas gerações?
A partir daquele momento comecei a refletir sobre a o meu processo de produção escrita, meus pensamentos, minhas ideias e sobre o potencial que elas têm de se tornar sementes. Devia haver um estímulo maior no campo da produção escrita, não somente a academicista, mas a escrita poética e sua força natural de nos colocar em estados de compreensão do eu tendo base os sentimentos do outro (parafraseando Leandro Konder em As artes da palavra:elementos para uma poética marxista).
Produzi um painel temático que clareou significativamente a minha compreensão téorica da poesia, baseando-me nesse livro do Konder, o qual recomendo fortemente a leitura.
Também indico a leitura deste post no blog cultura e consumo desenvolvido pelo professor Francisco Giovani Vieira, que chama onde anda a poesia, acessem neste link: http://culturaeconsumo.blogspot.com.br/2011/08/onde-anda-poesia.html.